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SAVAGE X FENTY E O RESTO: COMO É SER DIVERSO?


" A aceitação da diversidade corporal vem da naturalização da expressão emocional e física de pessoas diversas, é validar a fala dessas pessoas, é saber conviver sem precisar codificar um comportamento para com aquele ser humano por como ele se parece."

- Martina Louise Schneider


A estudante de comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e autora do artigo, analisa as movimentações da moda a respeito do que é e como ser diverso na contemporaneidade.



O SER.


O corpo feminino vem sendo questionado há décadas pelas mães feministas que lideraram movimentos libertários sensacionais. Desde o início do século XX, conquistamos vários direitos relacionados ao ser mulher, isso é: votar, divorciar-se, trabalhar, não casar, casar com mulheres, e, na moda, vestir o que bem entender. Chegamos no século XXI com as minissaias já naturalizadas, bem como os cropped tops estampando personalidades em todos os formatos possíveis pelo globo. Todavia, 2020 parece ter entitulado-se como o ano do “basta”, o que quer dizer que, a partir de agora, a liberdade fundamental é a de corpo e alma, independente das vestimentas, ou não vestimentas, que estivermos usando.

Talvez possamos questionar que esse basta seja anterior à 2020, e é; porém, as marcas que engatinharam esse tema extremamente fundamental foram base para a verdadeira revolução. No dia 10 de Outubro, a cantora e empresária americana, Rihanna, lançou a segunda edição do seu show de lingerie da sua marca Savage X Fenty, e será por ele que explicaremos os grandes impactos que Riri alertou-nos sobre a sociedade que queremos viver.

Personas, cores, corpos. Rihanna lotou o Amazon Prime com uma diversidade, de fato, profunda. Isso é: não basta apresentar a top model com um dos tipos de corpos - inclusive entre as top models - e a plus size, afinal, na maior parte do tempo, não somos nem o 8, nem o 80, porque há outros 78 outros jeitos de ser no meio disso. Rihanna parece ter compreendido que o mundo da pluralidade é representar as 80 mulheres, porque inclusão é sobre identificação. Por exemplo, se você nunca viu, ou nunca verá, alguém como você em algum lugar realmente cheio de holofotes, é muito fácil que você jamais se sinta acolhida por essa indústria afastada da verdadeira realidade social. Ademais, percebamos que somos 80 tipos de corpos diferentes, bem como 80 tipos de cores diferentes, cabelos diferentes, jeitos diferentes. A aceitação da diversidade corporal vem da naturalização da expressão emocional e física de pessoas diversas, é validar a fala dessas pessoas, é saber conviver sem precisar codificar um comportamento para com aquele ser humano por como ele se parece.

A indústria da moda e da comunicação, tem investido fortemente em inclusão como uma forma de reparação histórica e incentivo futuro. Tornou-se quase desconfortável quando uma marca não observa que o mundo está mudando, e não cabe ao capitalismo definir ou limitar quem é o seu consumidor, até porque a intenção do próprio sistema não é essa. Logo, na era da sustentabilidade ecológica e emocional, não há saída para o mercado, se não tornar-se um bem-estar social, se assim quiser colaborar com as mudanças contemporâneas do ser. As grandes grife compreenderam essa mensagem, finalmente, pois em 2020 a francesa Chanel apresentou, pela primeira vez, diversidade corporal no elenco do fashion show de inverno. Versace, uma das potentes italianas, apresentou um desfile impactante seguindo a mesma trilha, porém contando com ousadia de público no casting, mostrando que a Europa não detém mais todo o poder mundial… isso é gigante, porque é quase altruísta - embora tardio - descer do pedestal e reconhecer a beleza do outro, a grandiosidade de outros continentes.

E porque Savage X Fenty foi o grande basta de 2020, e não as outras mães? Porque se a intenção de abordar a diversidade é propor uma crítica ao sistema, não faz sentido ser o 8 ou o 80, tampouco insistir na crítica, é preciso apenas ser diverso, sem que isso seja um tema, mas sim uma linguagem. As gerações que cresceram vendo o desfile de lingerie da Victoria’s Secret, provavelmente são mulheres e jovens que tendem a glorificar um tipo de corpo que quase transcreve “você jamais será assim”. Aquele corpo, nitidamente esculpido por alguma máquina ou massoterapeuta (que provavelmente não tem o corpo que ela faz) é, de fato, inatingível, porque ou você é fruto desse auxiliar, ou você vive para ter esse corpo. 8 ou 80. As 78 outras opções são mulheres engenheiras, advogadas, donas de casa, manicures, professoras, médicas… e estão todas perfeitamente onde deveriam estar: onde e como quiserem. Porém, nenhuma das 80 variáveis de feminino estão ausentes de desejo, de quaisquer tipos que o ser humano pode ter, e isso inclui o corpo inédito de cada uma. Não faz sentido que algumas possam sentir prazer sexual, consigo mesmas ou com outros parceiros ou parceiras, porque sentem liberdade corporal para explorar-se ou sentir, e outras apenas tenham vergonha. Essas são sensações frutos da linguagem visual que elas recebem, são os resultados das lingeries que elas vêem. Não é mais sobre poder exibir-se de lingerie, é sobre quem e o que queremos exibir em lingeries.

Durante muito tempo as marcas quiseram mostrar vários corpos para cumprir o bullet point da diversidade. Não levou a nada, pois ao invés de naturalizar o movimento, outras mulheres apenas estranharam aquela presença. Rihanna liderou a primeira tentativa de inclusão que preocupou-se em mostrar uma coleção de lingerie, não uma coleção de mulheres para vestir lingeries. Rihanna provou que é possível contemplar um sutiã, na sua beleza completa, casualmente num corpo x ou y. O e-commerce da Fenty, mostrou até que não só mulheres vivem pressão estética, mas homens também… e optou por um modelo masculino com seios aparentes, cuecas em altura normal, não escondendo qualquer gordura que não pudesse ser mostrada. Não é sobre encaixar um modelo 80, 65, 39 ou 12 no corpo de um modelo 8, é aceitar todos os outros.

Apesar da problemática urgente, é necessário paciência com a nossa própria história. Ninguém é culpado pelas decisões de Luís XIV e sua autoestima na França… tampouco de Maria Sanguinária na Espanha, quem sabe até a dinastia Japonesa que intitulou a beleza do branco. Não somos culpados pela Monalisa, pela Vênus, pela Afrodite, Cassandra, Cleópatra. Não somos culpados por Eva, ou a Virgem Maria. Mas fomos iluminadas por Simone de Beauvoir, Virginia Wolf e, por que não, Rihanna. Todas, a sua maneira, compões cada mulher de 2020, em cada canto do mundo. Por isso, Riri fez algo glorioso e divisor de águas: é como se ela tivesse perdoado a história, abraçado nossos antepassados, e nos entregado um manual de como lidar com essa carga complexa que é a identidade, individualmente e socialmente. Apenas aceitar, apenas abraçar e, sobretudo, respeitar, validar, não iconizar o diferente porque ele aparenta ser diferente. O diferente pode ser diferente pra você, e igual para outros. Por isso, é óbvio que a diversidade é um diálogo entre linguagens semelhantes e intencionalmente conflitantes.

É preciso compreender que o capitalismo beneficia-se do conflito de imagem, justamente porque tudo que se pode capitalizar é uma forma de gerar lucro. Entretanto, corpos não são mercadorias, e vindos de uma pandemia inacabada do COVID-19, é notório que há concepções que precisam ser atualizadas. Rihanna mostrou que uma marca multibilionária é capaz de ser correta e faturar bilhões com vendas esgotadas em tempo recorde, sem contar com o impacto nas redes sociais de múltiplas observações da campanha. Será que não temos, aqui, uma aula de economia? Será que não estamos perdendo dinheiro porque não cooperamos com a diversidade na sua essência? Desde funcionários a CEO’s até chegar na escolha de modelos, ser uma holding que é mais que uma holding, é uma ideia, é um bem tangível e intangível, é um potencial transformação de geração, de mundo. Mais um ponto para Riri, que no seu segundo show já deu aula para as grifes ao lado sobre tantos fatores.

Por fim, é importante salientar que qualquer tentativa de inclusão é válida, porque escolher dar o espaço é melhor do que não ceder espaço nenhum. Mesmo que as tentativas de outras marcas, que são, sim, grandes marcos numa indústria historicamente excludente e preconceituosa, como a própria Chanel, é importante aprender com Savage X Fenty que não é só sobre representação, é sobre valores. Para quem estamos lançando coleções, que tipo de futuro queremos questionar… talvez essas perguntas sejam amedrontadas pelas respostas, quem sabe sejam um desafio grande demais, uma responsabilidade histórica que requer coragem. Mas coragem teve a minissaia, coragem teve a alfaiataria, coragem tiveram as mulheres de biquini quando Jânio Quadros disse que não em 1961. Coragem tiveram as francesas em Maio de 1968, ou as judias em tempos de Hitler. Coragem têm as americanas que não aceitam Donald Trump, e também as brasileiras que resistem à Jair Bolsonaro. As chinesas, as nigerianas, as venezuelanas e as congolesas. É necessário audácia para mudar o mundo. Desde sempre, até que Marielles e Marias não vejam nos ícones e nas deusas um corpo, mas sim uma ideia. Obrigada, Rihanna, por botar-nos a caminhar.






















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