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Ideias para Adiar o Fim do Mundo? Os sonhos precisam cooperar.




" Hoje, em 2021, a ciência tem feito o papel de sustentar e viabilizar uma nova chance para sonharmos melhor."



Esse texto é de autoria da revistatato, como uma forma de insistir na disseminação da obra de Ailton Krenak, "Ideias para Adiar o Fim do Mundo" , afinal, o mundo tá com cara de que vai acabar.

Os sonhos precisam cooperar.


Quando John Locke, grande influenciador da ciência social, diz que, “Os homens vivem em sociedade para protegerem a sua propriedade.”, ele se referia a um formato econômico, político e social de organização. Se questionarmos esse conceito, tomarmos uma posição metafísica, é indispensável pensar na própria pluralidade humana como dificultador em agrupar interesses. Na época em que o pensamento lógico, científico e patrimonial é imperatriz contra a asfixia sanitária mundial, talvez seja razoável ponderar a essencialidade da cooperação de ideias, culturas e experiências, para acalentar os sonhos, nossas verdadeiras propriedades.

Boaventura de Souza, sociólogo brasileiro, garante que a ecologia dos saberes também deveria integrar a experiência cotidiana, inspirar escolhas sobre o lugar que queremos viver e nossa percepção de comunidade. Ele é citado por Ailton Krenak, na sua obra “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” , um livro fundamental para quando o niilismo não conforta mais. Krenak diz que a concepção que têm-se de razão é rasa (PÁG. 19) , afinal, ela dispensa algo anterior ao pensamento, que é o milagre da vida, o tempo da natureza e o existir folclórico do mundo. De maneira alguma se coloca em oposição a ciência - entidade das universidades - e a cultura do saber, mas porque uma parece tão contra a outra?

A pandemia do COVID-19 foi interpretada de muitos jeitos, por muitas culturas e muitas pessoas diferentes. Aos céticos, a previsibilidade e matemática. Aos religiosos, espaço para aprender, rever, mudar. Onde essas perspectivas se encontram? O tempo inteiro. Quando a propriedade privada, e a própria vida é considerada uma empresa, escolhe-se por quem e o quê iremos lutar para defender. O mundo, entretanto, (e a própria ciência conhece essa verdade) não é infinito, e a crise climática é a prova de que a cultura ideológica de felicidade e sucesso precisa mudar com urgência. Logo, o eu não está acima do todo. Não é sustentável que todos tornem-se CNPJ, porque isso significaria que lutaríamos constantemente contra nós mesmos. Torna-se, portanto, uma questão de cooperação, porque a propriedade mais preciosa que temos é a vida, ou as vidas.

Sendo assim, não teria chego o momento de validar a resistência decolonial, indígena e originária, que resiste à maquina do capitalismo, há anos? Resistir ao coronavírus tem sido exaustivo emocionalmente e fisicamente, por questões biológicas e filosóficas. O cansaço que bate na porta é a ideia de que precisa-se sobressair o momento, gerar mudança, ganhar dinheiro, ficar feliz, se reinventar… quando isso não é verdadeiramente possível, pois tudo já mudou. Seria como lutar contra uma correnteza, afinal, em algum momento há de se concordar que nem a ciência poderá salvar a ausência de oxigênio para viver e sonhar. Pode ser o momento para abraçar e olhar para o que significa sonho para essa sociedade confusa.

"(...) Ver o sonho não como uma experiência onírica, mas sim como uma disciplina relacionada a formação da cosmovisão, à tradição de diferentes povos que têm, no sonho, um caminho de aprendizado, de autoconhecimento sobre a vida, e a aplicação desse conhecimento na sua interação com o mundo e outras pessoas. (...)" (KRENAK, Ailton) (PÁG. 52/53). Ou seja, talvez a resposta para um mundo melhor esteja na cooperação para a proteção da liberdade do desejo em produzir sonhos - porque não chamá-los de ambições - coerentes com o ser e a capacidade do universo de satisfazer. A resposta está no que estamos sonhando.

Hoje, em 2021, a ciência tem feito o papel de sustentar e viabilizar uma nova chance para sonharmos melhor, repensarmos a própria estrutra que defendemos, tão bem descrita e compreendida pela própria ciência. Uma vacina é um shot de simancol para observar entidades como o respeito, a resiliência, o amor, a arte. Ideias para Adiar o Fim do Mundo é, nada mais, nada menos, que um convite para reavaliarmos valores capazes de amenizar o estrago já feito pelo individualismo. Lê-lo é uma bênção. O conhecimento não pode mais ser mercadoria, porque ele é feito de gente e gente somos nós, responsáveis por estudar sempre mais, inevitavelmente, pelo simples fato de que resistir é se reinventar nesse compilado de injustiças que chamamos de casa.

A tribo Krenak, dentre as milhares comunidades indígenas só no Brasil, está resistindo a um sistema político doente há 500 anos, do seu jeito, a sua maneira, no teu tempo. É um milagre que os europeizados e conectados no universo digital possam observar tamanha diversidade e se diversificar, influenciar e, também, resistir. A ciência nos dá essa possibilidade de sonhar, porque ela conhece, mais que tudo, a si mesma. A ciência é coerente, verdadeira e as vezes dolorosa. A construção da história, que virará a ser ciência um dia, determina o caminho da própria produção científica. A história é feita da gente, pela gente e para a gente.

Krenak termina sua obra questionando o Antropoceno, a era geológica marcada pelo homem e suas relações, como caótica. Para ele, supostamente estamos perdendo qualidade de vida ao seguirmos com as concepções de mundo suicidas, gananciosas e exclusivas. A sonoridade pode incomodar, afinal, é uma crítica direta ao que nos ensinaram a sonhar ser e construir. Mas é isso mesmo: enquanto o sonho - seja individual e/ou coletivo - for uma produção e não uma sensação, estaremos fadados ao leito de morte. A ciência, antes de ser uma cura, é sempre preventiva. Se ela está descrita e transcrita, interpretável e engrenada por ela mesma, ela torna-se um campo de compreensão e avaliação de si. “A arte existe porque a vida não basta.”, nas palavras de Ferreira Goulart. Quando saímos dos livros e vemos o mundo, somos arte e gente pisando em bases orgânicas. Vamos cooperar?

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