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CONVECÇÃO DOS CICLOS: O MOVIMENTO DAS ÁGUAS.

“O que estou te escrevendo, não é para se ler, é para se ser”.


CONVECÇÃO DOS CICLOS


O Brasil está atravessando a temporada quente da natureza e, para a maioria das pessoas, o senso comum é a procura por água. Elis e Tom, em 1970, fizeram música para homenagear os ciclo das chuvas de março frequentes nessa época, que fecham o verão, que cessam a convecção de ciclos diversos. Isso é, a vida parece apresentar-se em paramento, um vez que humanos procuram por águas e as águas manifestam-se para e com nós. Possivelmente, nesse diálogo profundamente raso pelo tempo que temos, surjam boas tormentas internas que tornem-nos marinheiros mais loucos.

Quando sento-me nesse calor para aproximar-me de desejos, penso que seria uma bênção - para mim e todo mundo - que chovesse só um pouquinho. Notei, por mais simples que seja, o quanto precisa-se de chuva, da água da chuva, do temporal, o único capaz de combater os compilado pesado de partículas insuportáveis pelo ar. A chuva que me refiro é longínqua, estudada e traduzida pela geografia como chuvas convectivas. A convecção, nesse caso, vem do movimento ascendente ou descendente de algum tipo de matéria, misturado com uma teoria genial dos ventos, que nomeia o meu “compilado pesado de partículas insuportáveis” de baixa pressão. Necessariamente, essa célula precisa inverter-se com uma célula contrária de alta pressão, e fazer o meu calor passar. Esse resumo grosseiro vem acompanhado da intenção de evidenciar que a bênção que esperamos é uma ciência milenar, repetitiva e nunca sem graça. Essa chuva vem renovando a vida há milhões de anos, e passou a definir o viver desde as primeiras formas de organização do período paleolítico adiante (de 2.5 milhões de anos até 10.000 anos a. C). Entra ano, sai ano, todo mundo parece precisar dela. Imagino que a convecção, dessa forma, ultrapasse os movimentos e supere os limites dos interesses: o que converge, aqui, é tudo e todo.

Elenco, por segundo, um nutriente interno da vida, nossa água doce. Se imagino a infância, lembro-me da alegria de ver o rio, deitar na cascata, atravessar os corregos. A água doce é o sangue que corre na natureza brasileira e enche de tempo a fauna e a flora, sobretudo, a nós. São ciclos interdependentes, infinitos entre si. Lavosier trouxe uma das frases mais fundamentais que a humanidade poderia conhecer: “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Tudo sempre se transforma. Como acredito que não há nada mais profundo do que o estar vivo, agradeço o sistema natural por me permitir existir e coexistir, e encerro ademais análises claramente descartáveis aqui.

Chego nas marés que me lembram o verão. O globo é composto por, aproximadamente, 70% da superfície de água, enquanto nós, humanos, também nascemos com a mesma quantidade. Algo nesse número me lembra imensidão, talvez porque o planeta aparenta ser infinito aos olhos de quem nunca saiu do chão. No movimento da água do mar há uma semelhança breve de conceitos com a água da chuva, afinal, há convecção de matéria, apenas não esporadicamente, e sim, constantemente. Nós, humanos, por outro lado, tendemos a ir a praia só no verão, e agora é a hora. Sonho em estar escrevendo com uma brisa e um mar ao meu alcance, porque acredito que há algo de impermanência e de certeza que convivem muito bem no mar. Gostaria que mais vidas fossem assim. O privilégio de sincronizar os tempos com a natureza é revigorante e esclarecedor sobre o próprio motivo de existir. Embora o grande período da estacão de verão seja reflexivo, o tempo em pequena escala também evidencia paciência e mudança. Entra-se no mar quando o mar estiver pronto, em baixa maré para garantir seguranca, ou entra-se no mar a qualquer tempo, mas você precisará conhecê-lo o bastante para saber que nem em qualquer hora você conseguiria entrar. Há ciclos grandes e ciclos pequenos, há ciclos vitais e imaginados. Sinto que o verão nos condiciona a pensar sobre as vidas e os tempos, mas muito mais sobre a necessidade humana como um todo e a natureza como um todo. Tirei tudo isso de Iemanjá, orixá das águas salgadas, que na mitologia é famosa por ser mãe do mundo, a que leva ao Novo Mundo. Talvez todos procurem por um mundo novo depois do verão no Brasil.

Prontifico meu pensamento a acreditar que a água, no fim, serve para limpar. Em Água Viva, Clarice Lispector escreveu: “O que estou te escrevendo, não é para se ler, é para se ser”. Abraço suas palavras e inundo com as minhas, e, assim, proponho frescor para os verões por aí.

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