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A herança da coragem e a tradução do feminino: agora podemos correr como lobas.


Espero escrever para todas e todos provarem da doçura da plena consciência.

Recomendo essa bíblia para o intelecto e o abraço psicanalítico, o colo para a dor e nutriente para viver.


Martina Louise Schneider é estudante de Comunicação Social - Jornalismo (PUCRS) e Administração (UFRGS) e autora dessa resenha. Com a vontade de mover o mundo, vê a alavanca no poder feminino escrito por Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos.


A herança da coragem e a tradução do feminino: agora podemos correr como lobas.


Quando Sócrates disse que é necessário que o ser humano conheça a si mesmo, talvez não imaginasse a amplitude dessas palavras combinadas. Porém, se analisadas, traduzidas e revividas, chega-se facilmente em um eixo central que, possivelmente, resume-se a: “ (…) histórias conferem movimento à nossa vida interior (…)” e “ (…) as histórias permitem reerguer um arquétipo submerso (…)” . Ou seja, nesses trechos da introdução do livro, “Mulheres que Correm com os Lobos”, percebe-se que Sócrates só poderia estar falando de construção e conhecimento, como um todo universal, e, sobretudo, um todo pessoal. Clarissa Estés leva-nos a passear pela história do feminino, para encontrar e buscar compreender a verdadeira mulher que existe em cada uma das almas femininas.

Durante uma densa leitura (do que eu carinhosamente defino como “bíblia feminista contemporânea”), esbarra-se muitas vezes com os motivos e as influências comportamentais femininas desde muito tempo. Clarissa nos embala com mitos, contos e histórias que recheiam diversas culturas pelo mundo, como se reunisse um compilado das histórias-para-ler-antes-de-dormir. Acontece que nos finais felizes e infelizes, provavelmente o mais importante foi caminho que conduz uma história a produzir um tipo de significado ou não. Mulheres que Correm com os Lobos fala sobre as atitudes e influências que fazem mulheres chegarem aos finais das histórias, porque a consequência ou fim é resultado de um comportamento ou decisão. Nesse momento, reflete-se, nas mais variadas histórias asiáticas, orientais, mitos gregos e afins, o porque e como uma herança cultural se comporta.

Talvez Jane Austin tenha construído um belíssimo romance entre Elizabeth e Mr. Darcy, com o final mais lindo e campesino possível para 1900 e tantos. O que faz de “Orgulho e Preconceito” um marco literário é a audácia de Elizabeth em desafiar o egocentrismo da monarquia inglesa, botando como prioridade e equidade de opinião entre ela e alguém supostamente mais rico, mais poderoso, mais importante, do que ela, e não do final feliz em si. Estés selecionou as histórias fundantes, as princesas, os medos, os desfechos, as personalidades… tudo isso para evidenciar que toda e qualquer personagem - mulheres na sociedade - tem capacidade de conectar-se com o seu interior animalístico, instintivo e arquetípico. O interior que Clarissa define como “La Loba”, é a mãe regente da força mais potente possível no feminino, que, quando conectada com o corpo, torna-se substancial e feroz. Simone de Beauvoir escreveu, na obra “Segundo Sexo”, que uma mulher não nasce mulher, torna-se. O tornar-se é La Loba. O conhecer-se é La Loba. Conhecer ao todo feminino e cultural é La Loba.

Mulheres que Correm com os Lobos está organizado em 15 capítulos que comportam a complexidade dos medos e processos do existir feminino. Cada capítulo traz histórias que abordam os pilares de formação da mulher como mulher. O fio condutor é La Loba, que é o equilíbrio do “self”, como define a autora várias vezes nas análises psicanalíticas depois dos contos, como uma interpretação do que se viu. Ao longo da leitura, e depois análise, é como se o próprio leitor ou leitora passasse a se analisar como fruto do seu passado, conjunto com todas as outras mulheres até hoje. É carinhoso resumir esse formato de leitura como newtoniano, ação e reação. As Martinas, como eu ou você, são consequência das Marielles e das Marias. A mulher selvagem, La Loba, é quem conduziu todas nós ao pensamento feminino… realmente uma metáfora bíblica quase perfeita, tirando o lado ruim que a própria igreja criou e estimulou nas mulheres, nos contos e na bíblia católica ipsis litteris, que fundaram traumas femininos por tabela ou intenção, depende do seu ponto de vista.

Um dos textos tocantes do livro é o conto sobre a Baba Yaga, que transcorre todo o terceiro capítulo com profundidade. Esse conto fala sobre a dúvida e desconfiança feminina em si mesma, porém guiada pelo arquétipo da mulher que age sempre bem intencionada, como se toda mulher fosse graciosa e esperançosa na sua própria bondade por justiça. O conto da Baba Yaga repete o cenário de Cinderela, porém a Baba Yaga é uma boneca de porcelana que a mãe de Vasalia (Cinderela) a teria dado antes de morrer, determinando que a única regra era a filha sempre obedecesse e confiasse nos conselhos da boneca, quando pedisse ajuda a ela. Vasalia recebe tarefas de sua madrasta que seriam praticamente impossíveis de cumprir, como buscar fogo na casa da bruxa dentro da mata, pois ela era a única fonte para o inverno. A má intenção da madrasta era que Vasalia não conseguisse e não voltasse mais, e, se chegasse, a própria bruxa a torturaria sem que tivesse sucesso na missão. Vasalia, ao duvidar de si o tempo todo, confiava, acima de tudo, na boa intenção que sua mãe havia lhe ensinado, e a confiar na boneca de porcelana. Vasalia conclui a tarefa, mesmo após uma série de desequilíbrios psicológicos que a fazem acreditar ser incapaz.

O instinto que mantém Vasalia firme na boneca é, como conta Clarissa, uma manifestação da La Loba por meio da boneca. Isso é: quando Vasalia confia em si, vai contra o senso negativo externo que a estimula a desistir. Ao aceitar o passado de sua mãe presente na boneca, e, correndo o risco de acreditar em algo subjetivo, Vasalia aprende a acreditar em si acima de tudo. Acreditar em si é um tato da La Loba no viver, porque ela representa o ser livre e autônomo naturalmente impedido pela história feminina no mundo. “(…) Deixar morrer é o tema final da história. Vasalia aprendeu sua lição. (…) Para a maioria das mulheres, deixar morrer não é contra sua natureza, é contra sua criação. Isso pode ser modificado. Todas nós sabemos, no fundo, quando chegou a hora da vida, quando chegou a hora da morte. Podemos nos enganar por vários motivos, mas sabemos. (…)” (ESTÉS, p.135). E, um pouco antes, “(…) Seu objetivo é o de nos ajudar, cuidar da nossa arte e reatar nossos vínculos com os instintos selvagens. (…)” (ESTÉS, p. 134). Mulheres são fruto do passado que é preenchido com uma bagagem alta demais de dor. Por esse motivo, La Loba e Clarissa nos ensinam, por meio desse passado, ou melhor, da compreensão dos verdadeiros sentidos do passado, pode-se mudar o presente e o futuro. A conexão com o self pode parecer e ser dura, egoísta ou até teimosa, mas é necessária para corrermos com e como lobas no trajeto hostil do viver.

A generosidade de detalhes e interpretações dos contos é uma riqueza para a literatura. Mais que um compilado de referências e, admirável contundência, o livro é um abraço para todas as mulheres que compartilham da confusão do ser feminino. O dilema nos imposto, entre o sentir e o status quo, é traidor da verdade sobre nós, mulheres. Vejo Mulheres que Correm com os Lobos como um espaço de perceber, por meio da empatia e ciência, o resultado do trabalho da La Loba na vida de tantas mulheres que tornaram possível o manifesto de outras várias meninas por aí. Talvez seja duro ouvir sobre um passado como esse, e que talvez fosse mais fácil submeter-se ao fluxo vigente na sociedade. Por isso, Clarissa Estés ensina que a consciência é La Loba por si só, e nos entrega um guia de reflexão como esse livro bem se apresenta. Algumas de nós vão precisar mais tempo, mais coragem e mais esforço para tocar-se com o seu self. Esse fato define o processo de leitura desse livro: um dia somos mulheres que correm com as lobas, noutro podemos ser mulheres que correm como lobas. O verdadeiro arquétipo da mulher selvagem é a exótica mulher que vive em você, e em mim ao mesmo tempo. Conheçamo-nos a nós mesmas, para tornarmo-nos mulheres organicamente nutridas de nossa mãe natureza, nossa arte e ser.


-Martina Louise Schneider.


Ps: Escolhi a fotografia de Sônia Braga porque, para mim, ela é a personificação de La Loba no meu imaginário e sonho. Aprendo com sua força como mulher no Brasil e no cinema, bem como acredito ser fruto do seu legado. Te agradeço.

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